sexta-feira, 22 de junho de 2012

O nascimento de um pai

Depois de muito enrolar, enfim terminei o meu "relato de parto" paterno. Ei-lo aqui.

Foi no dia 24 de maio de 2012 que a obstetra da maternidade disse que a Júlia nasceria no dia seguinte. Perplexo e absorto com a notícia, eu tentei me segurar, para não desequilibrar diante do buraco que abriu na minha frente. Depois de nove meses, minha ficha só tinha caído naquele instante. Eu seria pai.

Deixei as preocupações e angústias de lado, e me concentrei no momento de seu nascimento. Ansioso cada vez mais por sua chegada, fomos para o hospital no dia seguinte, após rezarmos um lindo Pai-nosso com a barriga da Bia. Momento emocionante número um.

Chegamos lá e a Bia entrou na sala de observação para ser avaliada pela obstetra novamente. Naquela maternidade, os acompanhantes devem aguardar do lado de fora. Apesar de ser contra a legislação vigente, eu  fiquei sentado na recepção aguardando e conversando com a Bia através de SMS.

Após a confirmação do parto, entrei na sala para pegar as coisas dela e voltei à recepção para preparar sua internação. Assinei tantos papéis quanto os necessários para abrir uma conta-corrente ou uma empresa. Sentei à recepção novamente e aguardei. Durante longas horas...

Como disse anteriormente, é importante dar essa dica para as gestantes e pais que desejam assistir o parto: toda a gestante tem o direito de ter um acompanhante durante o pré-parto, o parto e o pós-parto, inclusive durante seu período de recuperação anestésica, pós-parto imediato e internação. Nenhum hospital, seja público ou particular, pode obstruir a legislação vigente com qualquer desculpa, seja por conta de tamanho das instalações, acomodação de enfermaria, sexo ou tipo de plano de saúde. (Saiba mais aqui e aqui).

Mesmo sabendo dos meus direitos e da vontade da Bia de estar acompanhada, eu permaneci na recepção aguardando sua ida ao parto. Ela esteve sozinha, mas se manteve calma e tranquila em todos os momentos.

Logo após ela ter subido ao centro cirúrgico, fui "liberado" para que eu pudesse assistir o parto. Fui instruído a me vestir adequadamente para a cirurgia no vestiário do centro cirúrgico. Olhei para o espelho com aquela roupa de cirurgião e me vi em um futuro do pretérito realizando o sonho de ser médico. Eu olhei no espelho e disse: "Doutor Gustavo, o senhor vai ser pai". Esse foi o momento emocionante número dois.

Se eu não tivesse voltado ao posto de enfermagem do centro cirúrgico, minha filha ia nascer e eu nem teria visto. A boa vontade faltou àquele enfermeiro que me mandou esperar no vestiário.

Enfim fui chamado para assistir o tão esperado parto. Andando calmamente, mas com bastante adrenalina no sangue, cheguei à sala de cirurgia que a Bia estava. Ela já estava deitada, anestesiada e no momento de ser cortada pelos cirurgiões. Um deles, provavelmente o líder da cirurgia, me mandou ficar em um canto em pé. Acredito que ele não queria que eu visse ele abrindo o útero da Bia.

Finalmente a obstetra que conduzia o parto pediu a uma auxiliar que colocasse um banco ao lado da cabeça da Bia para eu sentar. Para isso, tive que contornar toda a mesa de cirurgia, em 360 graus, para chegar ao outro lado com o banquinho. É claro que nesse leve contorno de mesa eu pude ver minha querida esposa sendo literalmente cortada pelo casal de médicos.


Sentei sobre o banco e perguntei à Bia se estava tudo bem e se ela sentia alguma dor. Mais uma vez, calma e tranquila, conversou comigo sobre os momentos anteriores ao parto, sobre a anestesia e sobre o exame de monitoramento fetal que fez antes da cirurgia.


Em um ambiente muito sereno, a equipe médica conseguiu tornar o parto algo divertido e quase agradável. Após alguns momentos de cleck-cramp da pinças segurando a abertura do útero da Bia, pude ver as pernas da Júlia sobre a barriga da mãe, já sendo puxada pelo médico. Deu pra ver que foi um pouco difícil retirá-la pois, logo após sair, o cirurgião exclamou a frase "Olha, ela está toda enrolada...". Pela visibilidade que eu tinha, pude contar três vezes ele desenrolando a Júlia, que estava de aparência bem roxa. Segundos depois ele exclamou novamente: "Três voltas no corpo e no pescoço"! 

Os momentos seguintes foram rápidos, mas eu me lembro de cada um deles. Depois de cortado o cordão umbilical - não por mim - os enfermeiros e a pediatra logo levaram a Jú para uma Intensive Care Unit, uma espécie de berço cheio de preparatórios, inclusive aquecedor e um berço aconchegante que vibra. Eles aspiraram o resto da placenta das narinas dela e limparam seu corpo. E ela deu seu primeiro choro. Esse foi o momento emocionante número três.

Os enfermeiros continuaram a tratar da Júlia, enquanto a pediatra já fazia os testes e preparava para aplicar sua primeira vacina. Procedimentos realizados, ela veio falar comigo que estava tudo bem e que ela estava perfeitamente saudável.


Sem choro nenhum, ela foi trazida aos meus braços, envolta em um pano de aparência industrial e de cor azul. Eu levantei com os olhos cheios de lágrimas e a segurei contra meu peito. Dizendo seu nome e tranquilizando-a, eu pude vê-la abrindo os olhos e reconhecendo minha voz. Nenhum momento até hoje se comparou a este, sem dúvida, o momento mais emocionante da minha vida. Depois desse, perdi a conta de todos as outras emoções que vieram em seguida.





Logo depois ela foi levada pelo enfermeiro até a Bia, onde estava apenas a sua cabeça. O encontro delas também foi uma coisa que marcou nossas vidas para sempre.

Eu queria ter filmado tudo, mas achei que não deveria, por conta de todos os cuidados médicos que estavam sendo feitos. Ainda assim, decidi me recordar de todos os acontecimentos aqui, para nunca mais esquecê-los.

Não sei mais quanto tempo ficamos juntos, mas para mim os momentos em que fiquei com a Bia e a Júlia logo após o parto foram os mais longos da minha vida. Para lembrá-los, tiramos a primeira foto de nossa nova família.


Os cirurgiões acabaram a sutura na Bia, que permaneceu serena, como se estivesse em uma situação completamente comum. Eu fui gentilmente convidado a me retirar e fui acompanhando até o vestiário novamente. Lá eu tirei a roupa de médico e gritei silenciosamente para mim no espelho: "Eu sou pai"!

Desci para a recepção, onde encontrei minha mãe e a primeira frase que eu pronunciei foi "Ela é linda". Logo após o quarto da Bia foi liberado e nós subimos com as malas dela e da Ju. Após subirmos, fizemos uma limpeza com álcool no quarto, literalmente liderada pela minha avó materna e bisa da Júlia.

Os momentos de maior ansiedade não foram antes do parto, e sim depois dele e antes da Bia ir para o quarto. Talvez tenha sido porque eu já tinha o primeiro contato com a Júlia e quisesse estar ao seu lado novamente, ou porque a adrenalina ainda não tinha abaixado, mas fiquei em estado impaciente e nervoso.

Enfim as duas chegaram e eu pude ficar um pouco com elas antes de voltar para casa, já que a mãe da Bia ia ficar com ela no hospital. A Júlia chegou enrolada no mesmo pano no meio das pernas da Bia, aconchegada pelo calor da mãe. Ela foi deitada em seu pequeno berço, onde pôde conhecer as avós e a bisavó.

Me despedi da Bia com o maior carinho que tive em todo o nosso relacionamento. Foi o momento em que eu mais me senti unido a ela.

Depois disso, eu só pude deitar em minha cama agradecendo a Deus pelo presente dado que, por mais trabalho que dê, recompensa todos os esforços da minha vida com apenas um olhar.

Júlia. Meu presente, meu sonho, minha vida.

Um comentário:

  1. NOssa o relato de uma mãe já é lindo, de um pai é a primeira vez que leio e me emocionei muito.
    Parabéns pra vcs e que Deus continue iluminando essa linda familia que vc tem agora.

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